Muitos de vocês sabem que moro fora do Brasil há quase 2 anos. Nesse meio tempo eu tive oportunidade de ter contato com muitas mulheres que tiveram seus filhos em diversos países. O que eu percebi é que a tendência do parto, normal, humanizado, que vem crescendo no Brasil, já é prática comum em outros lugares. Há também depoimentos de cesarianas, mas estas, na maioria das vezes (mesmo), apenas são realizadas em caso de extrema necessidade.

Por isso eu tive a ideia de fazer um post por semana falando sobre os partos pelo mundo! vou abrir o espaço para que mães possam contar suas experiências e assim podemos trocar informações, falar sobre alguns mitos, medos e outros assuntos que envolvem o assunto. Espero que possa ajudar muitas mamães que estão na dúvida entre fazer um ou outro.

De qualquer forma, a intenção não é julgar quem tenha optado por fazer cirurgia, ok? Não, você não é menos mãe porque fez cesárea! Cada um tem seus motivos e não estou aqui para discutir isso, quero apenas abrir um canal de comunicação para que possamos nos “ouvir”.

Começo com o depoimento do Brasil (começar com a pátria me parece mais correto kkkk), de uma amiga de infância, muito querida e informada. O nome dela é Julia Campos, ela é assistente social, trabalha para o colégio Pedro II e tem um filho lindo chamado Paco. Boa leitura!

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Julia, Paco e seu companheiro saindo da maternidade

“Relato de parto… HUMANIZADO!

Meu relato começa a partir do dia anterior ao trabalho de parto em si, pois encaro o TP desde a percepção da parturiente das contrações irregulares que “chamam” sua atenção para parto até o nascimento da criança. Por volta da 1h da manhã do dia 21 de abril desse ano, comecei a ter contrações que nunca tinha sentido durante a gestação. Eu e meu companheiro nos ligamos que era o início da fase de total mudança de nossas vidas.
Ligamos para meus pais, para a minha doula Rebeca, nos encontramos na nossa casa e fomos para a maternidade (Hospital Maternidade Maria Amélia Buarque de Hollanda), que é a referência em parto humanizado no serviço público de saúde. Não fui admitida, pois após um toque de dor inenarrável foi feito – estava com dois centímetros e o colo do útero completamente para atrás ainda. Depois de fazer uma cardiotocografia (exame que mede o batimento cardíaco do feto), voltei para casa, onde ficamos na expectativa do nascimento- a minha estadia antes da minha liberação merece uma postagem por si só para falar de uma parturiente que me chamou a atenção.

Passamos o dia comigo tendo contrações esparsadas. Um casal de amigos aproveitaram para me visitar e ficaram espantados com a nossa tranquilidade. Aliás, eu não tinha feito meu plano de parto e acabei fazendo com eles e explicando alguns pontos. Um deles faz medicina e está quase se formando o que foi bom para me explicar algumas coisas. O outro não tinha nem ideia de como o movimento feminista enveredou tanto para discutir e impedir a violência obstétrica que não sabia que um parto pode ter um plano só seu. Achava que todos são iguais e ponto final.

Após um dia inteiro de algumas delícias culinárias realizadas, e compartilhadas no facebook, pelo Matheus, o início de um filme que teve que ser interrompido e alguns exercícios na nossa bola verde de exercício, por volta das 1h da manhã (mais uma vez!), contrações muito regulares e um pequeno sangramento nos avisaram de que dessa vez a ida para a maternidade seria definitiva! A partir daqui minha memória não é lá muito confiável, mas vamos que vamos…

Dessa vez minha mãe deixou o carro com a gente! Fomos direto para o MMA e nos encontramos – mais uma vez – nós, meus pais e minha doula. No caminho para a maternidade teve companheiro avisando de contração – que eu já sabia que estava super regular -, caminhão de lixo no meio e muita contorção minha (parir dói!).

O MMA respeita a presença da doula no quarto de parto junto a parturiente e ao acompanhante – o que é maravilhoso! -, mediante assinatura de um documento descrevendo o que se pode ou não ser feito durante esse processo.

Mais uma vez, o famigerado toque foi necessário para a minha admissão. Mas esse não doeu, já tava tudo esquematizado: colo para frente, 4 centímetros de dilatação, bolsa íntegra. Mais uma vez a cardiotocografia. Tudo tranquilo… Eu tava louca para chegar logo no quarto e ficar pelada debaixo do chuveiro quente! E foi o que aconteceu… Uma explicação: o chuveiro quente é ótimo para a dor, mas acelera as contrações, então, já viu, né?!

Não foi como pensei, tinha que sair debaixo do chuveiro, mas ao mesmo tempo, o quarto era extremamente gelado – ar central (PQP!). Me sequei, pus um avental, sentei na cadeira tipo cavalinho dentro do banheiro com o chuveiro ligado para ficar mais quente. Nada confortável! Deixa eu me levantar e colocar um casaco para ir para a cama… Tentei andar, doia mais. Tentei ficar apoiada na cama, tava cansada demais para ficar em cima das pernas. Finalmente, sentei na cama com meu companheiro me aparando sentado por trás – e a bola de exercício apoiando ele -, nesse momento chega a médica que me pergunta se pode fazer o toque para eu saber a quantas andava a dilatação – pedir para fazer o toque é o correto, médicx que já vai enfiando os dedos tá errado (isso é violência obstétrica!). Deixei, já estava com 10 cm! E a bolsa íntegra…

Ela, de uma forma muito legal e fofa, disse: “Já tá tudo certo. Deixa ele vir, minha flor!” E eu : “Eu tô tentando!” (Nesse momento, eu, meu companheiro, minha doula e a equipe de enfermeiras obstetrizes, todo mundo que Paco fosse nascer em breve… Ledo engano!)

Fiz muita coisa desde que entrei naquele quarto… Nada me deixava confortável e a cada hora que passava mais eu entrava na partolândia… Apesar de alguns momentos de certo desespero (?!), teve um momento que fiquei de joelhos em cima da cama me apoiando na cabeceira totalmente em pé. Lá fiquei por horas, sentindo as contrações, fazendo força longa aos poucos, me concentrando na expulsão do Paco. Dali conseguimos que o pequeno se encaixasse mais, descesse mais, quisesse nascer mais… A enfermeira que me acompanhou no inicio a fim ficava monitorando o batimento cardíaco do Paco de hora em hora… Como ele tava superbem o que tinha que fazer é continuar a caminhada!

Mas a progressão foi pouca… E a bolsa íntegra. Por outro momento fiquei pensando alto: “Eu não sei mais o que faço para ele nascer…”

Engraçado que o corpo, não sei como, faz que com a gente ensaie um descanso meio as contrações e a ansiedade. Tive a impressão de quase dormir em alguns momentos em cima da cama, de joelho mesmo.

As contrações são outras coisas de outro mundo! Algumas vem super forte, quase insuportável e outras vem mais brandas, dando um pouco de conforto.

Muita massagem, muita dor, muita ansiedade depois, desci para tentar andar um pouco. Não deu, não dava, e o pior é que eu sabia que isso fazia bem, mas não conseguia andar. Por isso, sentei na cadeira cavalinho e lá fiquei. Finalmente! Conforto em meio as contrações!

Já no expulsivo – criança encaixada e contrações que praticamente te mandam fazer força -, comecei a perceber que algo tinha mudado. Sentia a cabeça do meu filho cada vez mais descida. Pedi para Rebeca me dizer o que estava acontecendo, ela tirou uma foto e me mostrou. Depois disso, foquei como nunca! “Agora vai!”, pensei comigo. Resolvi cantarolar na minha cabeça “Feeling Good”…

A cada contração eu avaliava se fazia ou não força. Pois fazer força não é uma premissa para a contração. Você só faz força quando você quer fazer força, pois forçar a expulsão da criança sem o seu corpo pedir é ruim, faz mal sim! Só se faz força quando se deve/se quer e não quando x médicx manda/te obriga! Relatos e cenas que me deixam puta da vida é x médicx ou enfermeirx empurrando a barriga de uma parturiente para a criança nascer logo! Isso é violência obstétrica!

Quando teve essa mudança de cenário, a equipe voltou, pois tudo apontava para o nascimento. Linda cena, segundo Rebeca: eu sentada na cadeira, Rebeca de frente para mim, falando bem baixinho: “Falta pouco. Tá quase”; a equipe de 4 enfermeiras todas sentadas no chão esperando o Paco aparecer; e, Matheus logo atrás de mim, vendo tudo por um espelho para facilitar na hora que ele fosse aparar. Luz desligada… Silêncio… Eu chamava: “Vem Paco, vem meu filho… Aaahhh!!!” (E a bolsa íntegra)

Tem um momento muito doido que é logo antes da criança nascer mesmo, quando o corpo e as contrações param por um instante, meio que te deixam em paz, pois o quem vem é para dar cabo no processo. Me relataram que cheguei a tirar um cochilo no cavalinho! (Muitos médicxs nesse momento de descanso resolvem injetar ocitocina para a acelerar… Isso é violência obstétrica! Aliás, essa explicação foi dada por uma das enfermeiras da equipe que me acompanhou)

Pronto, nasceu! Nasceu aparado pelo pai, dentro da bolsa, me dando laceração de grau 1 (não sofri uma episiotomia desnecessária, que também é violência obstétrica!), todo duro/nada molenga, não chorou, me mijou as costas todas (sensação que sinto plenamente até hoje)…

Para mim, essa mijada de início de vida foi um aviso. Não tenho ideia de sobre o que! Mas aí eu seria a melhor mãe do planeta e não a pior se soubesse…”

Obs: Ela também tem um blog que se chama “A pior mãe do planeta” que anda meio desatualizado, mas quem quiser conferir só checar aqui. 

 

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2 comentários em “Partos pelo mundo- Brasil

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