Quando somos crianças testamos nossos pais a todo momento em busca do limite e aprendizado, na adolescência fazemos de tudo para ultrapassa-lo e nos sentimos imbatíveis, temos quase a certeza que somos imortais, até quebramos a cara e recuarmos.

Mas apenas na maternidade que cheguei ao ponto de ver meu limite, ultrapassa-lo e permanecer por um tempo além da fronteira do “suportável-insuportável” ,e, acredito que muitas mulheres, mães, também tenham cruzado essa linha.

Pensei mil vezes antes de escrever esse texto pq sei que pode ter uma repercussão muito negativa para alguns: aqueles que julgam sem se colocarem na situação do outro, que acham que apenas a sua realidade serve de paramentro pra tudo, que por radicalismo pensam em uma única direção; mas no final de toda essa dúvida, entre publicar ou não, conclui que poderia ajudar a muitos que estejam passando por uma situação semelhante e precisam de apoio, então resolvi escrever, até como uma forma de terapia.

Eu queria falar sobre limite, sobre angústia, frustração, culpa e saudades que sinto de um ser que mudou minha vida. Acima de tudo, também me sinto na obrigação de homenagea-lo porque ele me ensinou muito sobre ser mãe antes mesmo de me tornar uma.

Mate, meu (ex)cachorro maluquete, eterno filho peludo, não está mais na minha casa. Infelizmente eu precisei optar entre minha sanidade e ele, e com isso, buscamos uma outra família (em um processo feito com muita responsabilidade, buscando alguém de muita confiança).

Uma das decisões mais difíceis da minha vida, só quem é mãe de pet sabe o que estou falando, encontrar outro lar para um ser que vc ama profundamente é muito doloroso e uma ideia quase impossível de se lidar. Adotamos Mate com 2 meses e até com quase seus 5 anos (completados no último dia 11 de outubro), ele ficou conosco, sendo muito amado e cuidado como parte da família.

Nos mudamos há dois anos e o trouxemos do Brasil para Inglaterra. Eu sabia que seria difícil, mas na minha mente era inconcebível deixa-lo para trás. Algumas pessoas falavam: -O quê?! vc vai levar o cachorro também?!

Pra mim aquilo era tão obvio que eu respondia que sim com a mesma surpresa que as pessoas me perguntavam.

Chegando aqui percebi que estava sendo muito mais difícil que imaginei. Viver fora do seu país, com um bebê, um cachorro cheio de energia, maluquete e sem rede de apoio, não é pra qualquer um.

Tinha que sair com ele, no mínimo 1 vez por dia (nos dias de chuva, outros saia 2), com uma bebê a tira colo, dar atenção, carinho, cuidar em todos os sentidos (alimentar, dar banho, brincar) e ainda fazer dinâmicas para que ele aceitasse melhor Aurora, pq toda vez que ela se aproximava ele latia desesperado de medo, o que tornava tudo mais excitante pra ela. Era como um jogo e eu no meio tendo que lidar com toda a minha rotina e ainda passar o dia nessa loucura.  Sem contar que tivemos muitos problemas para encontrar casa e vizinhos bacanas que aceitassem a presença dele  (mudamos 2 vezes em dois anos) e treina-lo com ajuda de um profissional para que ele não atacasse outros cachorros na rua, além de outras coisas comportamentais, a gente não podia receber visita em casa que ele ficava latindo descontrolado, não para morder, mas ficava ansioso, como se estivesse nos protegendo.

No final de toda essa batalha, pesando 44 quilos, dois anos depois de me dedicar ao máximo para que tudo desse certo e fossemos uma “família linda e perfeita” com uma criança e cachorro que se amassem e brincassem juntos, eu entendi que não seria possível, que não estava ao meu alcance.

Passei muito tempo trabalhando essa aceitação, de perceber que sou humana e posso sim chegar ao meu limite, que posso sim não ser perfeita, que precisava me botar em primeiro plano para ser mais saudável e feliz, inclusive uma mãe melhor e claro, dar ao meu filho peludo a oportunidade de ter uma vida mais tranquila também. Porque do jeito que estava não era bom para ninguém. O estresse era inevitável e só tornava o ambiente um lugar pior para todos.

Muitas vezes precisamos dar um passo para trás e olhar toda a situação numa outra perspectiva. Nessa análise você não pode contar com opinião alheia; claro que essa opinião pode te ajudar a enxergar alguns pontos que tenham passado longe da sua visão, mas, vc precisa confiar nos seus instintos e na sua percepção de realidade, porque só vc a vive e só vc pode chegar a uma conclusão final justa.

No meu caso, a minha conclusão foi que eu precisava encontrar outra família pro Mate e  por mais doloroso que tenha sido, eu sei que foi o melhor a se fazer. Hoje, eu já noto a diferença na minha qualidade de vida e na dele. Tenho contato com as pessoas que o adotaram e ele está muito mais feliz, equilibrado, são 5 pessoas dando atenção que ele merece e necessita.

Muitas pessoas dizem que “dar seu animal para outros é desumano”, que “eles são parte da família”, que “não se dá um filho” e outras coisas do tipo…Muitas pessoas opinam sobre o que não vivem, sobre a perspectiva delas, sobre o que acreditam como verdade universal, sendo que não existe verdade universal. Para mim isso sim é desumano: Desmerecer a vivência e sofrimento do outro por achismo e arrogância.

Portanto, dose bem o que outros falam quando se trata da sua vida, tenha bom senso. Aprenda a usar um filtro para ouvir a outros e se ouvir com mais clareza, sinceridade. Isso vale para qualquer situação.

Algumas vezes sua decisão não irá agradar a terceiros, e pior, não irá agradar a si próprio, mas pense bem e siga em frente com o que acredita, faça o que precisa ser feito para que você se mantenha em pé.

Estava relendo uma matéria que falava sobre um dicionário feito por crianças e uma das definições que mais me chamou atenção foi: significado de PAZ é “se perdoar” (Juan, 8 anos).

Posso dizer que estou nesse processo, que ainda não estou totalmente em paz com a minha decisão, ela ainda volta de vez em quando pra me amargar, as saudades apertam meu coração, ainda não me perdoei, mas tenho certeza que foi a decisão certa e com tempo eu irei encontrar a minha paz absoluta sobre esse assunto. Vou continuar acompanhando meu eterno filho peludo de longe, torcendo para seu melhor e meu melhor também.

 

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